O novo filme de Kleber Mendonça Filho, “Aquarius (2016)”, o mesmo do impactante “Som ao Redor (2012)”, depois da polemica no ultimo Festival de Cannes em que todo elenco se mostrou contra o impeachment da então Presidente Dilma Rousseff. Está entrando em cartaz nos melhores cinemas da sua cidade. Estrelado pela eterna Gabriela Sônia Braga.
Aqui
ela é Clara, uma jornalista aposentada especializada em musica e que reside no prédio
que dá titulo ao filme. Ele está abandonado. Pois se recusa a sair do seu
apartamento, a empreiteira o que administra quer derruba-lo para construir um
mais moderno e bonito na parte arquitetônica.
A
trama parece ser simples. Mas é mais complexa do que aparenta ser. Chamou atenção
também nas redes sociais devido às suas sequencias de sexo. Um trabalho artístico
que não cai no “óbvio”. Afinal estamos falando de Sônia Braga. A Dona Flor e a Dama do Lotação, no auge de seus 66
anos e sem maquiagem, ela exala uma beleza e sexualidade que lhes é natural.
Voltando
a história de “Aquarius”, ela é
dividida em três momentos distintos: “O Cabelo de Clara”, “O Amor de Clara” e “O
Câncer de Clara”. Em cada um deles conhecemos sua personalidade reclusa e
forte. Ela fica no apartamento tendo como ideal de resistência ter superado um câncer
e a morte do marido. Vivendo ao lado de uma enorme (e invejável) coleção de
vinis com a de melhor da Música Popular Brasileira (trazendo de volta, o bom e
velho Taiguara com “Hoje”) e chegando ao rock’n’roll épico do Queen com “Somebody
to Love”.
A solidão de Clara reflete na relação dos filhos, em especial Ana Paula (Maeve Jinkings) que buscam convence-la para se mudar. Por correr risco de vida, morando como a filha diz em um “prédio fantasma”. Ao mesmo tempo, o jovem engenheiro da empreitada Diego (Humberto Carrão) também conversa com ela. Jogando com a situação se fazendo um cara legal, mas que na verdade quer tira-la de lá o mais rápido possível. O edifício fica em frente à Praia da Boa Viagem na capital do Pernambuco, Recife.
Como
num jogo de gato e rato, Clara em meios aos cantos escuros e vazios do prédio. Ouve-se
sons, vê-se sombras se movendo e a sensação de não estarmos sozinhos. Mendonça Filho (escrita por ele
inclusive) conduz a película num nível de tensão que é equilibrada com a
soberba atuação de Braga. Desde “Tieta
do Agreste” em 1996, não atuava por aqui. Ela se desnuda literalmente. Nos
brindando com uma performance livre de paradigmas. Uma mulher madura que se
mantem firme em seus ideais e integridade.
É um
filme que fala do contexto social que estamos vivendo agora. A falta de uma habilitação
adequada para uma população crescente e cada vez mais pobre. As grandes empresas
(aqui no caso, as empreiteiras) com a construção de grandes empreendimentos e específicos
para “pouquíssimas” pessoas.
Discute
também o que é “velho” e que é “novo”. Quando Clara argumenta com os filhos: "“Vintage”
tá na moda. Já o “velho” é feio e não vale nada". Abrindo uma brecha para
falarmos como a velhice é vista pela geração de hoje. Onde a vivência e a experiência
são descartadas por eles. Junto a isso, a modernidade (smartphones) se fazendo mais presente
em nosso cotidiano.


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